Do “retrocesso” ao “ Cunha Lima nunca mais”: Pedro e Cícero engolem o próprio discurso em nome do poder

11 fev 2026

A política paraibana parece ter entrado oficialmente na era do arquivo inconveniente. Basta puxar as falas de poucos anos atrás para expor o abismo entre o que era dito nos palanques e o que é praticado agora nos bastidores.

Pedro Cunha Lima foi categórico. Em campanha, carimbou o grupo de Cícero como símbolo de “atraso” e “retrocesso”. Falava em mudança urgente, em coragem para romper com velhas práticas, em virar a página de um ciclo que, segundo ele, impedia a Paraíba de avançar. A narrativa era clara: de um lado, o novo; do outro, o passado que precisava ser superado.

“O sentimento de mudança é o que nos une… não tem por que continuar no atraso… a hora de mudar é agora.”

A retórica era forte, direta e sem margem para dúvida. O grupo de Cícero representava aquilo que precisava ser vencido.

Do outro lado, Cícero também não economizava nas palavras. Em outro momento político, fazia questão de repetir em alto e bom som: “Cunha Lima nunca mais.” Era a rejeição pública, enfática, a um sobrenome que simbolizava um ciclo que ele próprio dizia querer distante.

Nunca mais.

Mas, como se vê, na política o “nunca” costuma ter prazo de validade.

Hoje, os antigos rótulos parecem ter sido convenientemente aposentados. O “retrocesso” virou aliado possível. O “nunca mais” virou diálogo aberto. As críticas duras deram lugar a composições estratégicas. E o que antes era tratado como linha vermelha virou ponte.

A pergunta que ecoa é inevitável: o que mudou tão profundamente em tão pouco tempo?

O grupo que era atraso deixou de ser?
O sobrenome que era inaceitável passou a ser aceitável?
Ou o que realmente mudou foi a necessidade eleitoral?

A política permite alianças, rearranjos, reavaliações. Isso faz parte do jogo democrático. O que não passa despercebido é a falta de coerência entre o discurso inflamado de ontem e a postura pragmática de hoje — sem qualquer mea-culpa, explicação ou reconhecimento público da guinada.

Quando Pedro classificava o grupo de Cícero como retrocesso, ele estava errado ou está errado agora?
Quando Cícero dizia “Cunha Lima nunca mais”, falava por convicção ou por conveniência momentânea?

O eleitor, que ouviu as críticas, viu os vídeos e acompanhou os ataques, agora assiste à reaproximação como quem vê um roteiro repetido: adversários de ocasião que, diante da possibilidade de ampliar espaço e influência, redescobrem virtudes uns nos outros.

No fim das contas, a sensação que fica é a de que os discursos servem enquanto rendem voto. Depois, ajustam-se as palavras, reescrevem-se as narrativas e o que era incompatível vira estratégico.

A coerência, essa sim, parece ter sido a primeira vítima.

Se antes era retrocesso e “nunca mais”, agora é o quê?
Se a mudança era urgente, mudou para onde?

A política pode até permitir esquecimentos seletivos. Mas o eleitor não deveria ser tratado como alguém sem memória.